segunda-feira, 25 de abril de 2016

Confissão, encontro com a misericórdia de Deus



Neste ano da misericórdia, somos chamados a recorrer a misericórdia de Deus através do sacramento da confissão. Esta é a principal “porta” pela qual devemos passar para o encontro com a misericórdia de Deus. Porém é necessário compreendermos mais sobre este grande momento de graça, superarmos preconceitos indo sem medo ao Senhor que nos espera sem se cansar para nos dar seu perdão com amor.

1. Deus escolhe instrumentos frágeis para mostrar que sua misericórdia não tem limites.

Um dos sinais da misericórdia divina neste sacramento é que Deus escolheu homens frágeis para dar seu perdão. Neste sentido entendemos as palavras de São Paulo: trago este tesouro em vasos de barro para mostrar que este dom não vem de nós (cf. 2 Coríntios 4, 7). Em João 20, 23 aparece claramente o mandato dado por Jesus ressuscitado aos apóstolos que não eram anjos, mas pecadores,  para perdoar em nome de Deus: “... os pecados que vocês perdoarem serão perdoados...”. Este modo de perdoar do Senhor escolhendo pecadores como instrumentos de sua misericórdia nos faz ver como a graça divina não pode ser limitada. Assim, não deveríamos desacreditar na validade do sacramento somente por ser o ministro um ser humano. Para Deus nada é impossível, se no Evangelho Cristo curou o cego usando lama, não poderá Ele curar da ferida do pecado através do sacerdote?

2. A misericórdia de Deus é maior que o pecado.

Se a misericórdia divina derramada no sacramento da confissão não é anulada pela fragilidade dos seus ministros, tampouco será cancelada por causa da gravidade dos pecados daquele que se confessa. Muitos se afastam de Deus achando que não podem ser perdoados. Quantos caíram no desespero, não querendo mais viver, pensando que Deus não os ama mais, devido suas quedas? A Palavra do Senhor neste sentido nos dá um consolo: todo pecado tem perdão, menos o pecado contra o Espírito Santo (cf. Mateus 12, 31-32). Como entender isso? Pecar contra o Espirito Santo é se fechar ao perdão acreditando estar as misérias humanas acima da misericórdia divina. Aqui, valem as palavras do Papa Francisco: “Deus jamais se cansa de perdoar, nós que nos cansamos de pedir perdão”.

3. A confissão não é tribunal, mas encontro.

Recentemente, foi lançado um livro cujo título é “O nome de Deus é misericórdia”. Neste livro o Papa Francisco, em entrevista ao italiano, Andrea Tornielli, fala que o momento da confissão não deveria ser transformado numa “sala de tortura”. Enquanto confessor, consciente de minhas fraquezas e pecados, não poderia eu ser rude com o penitente. Sem dúvidas, alguns esclarecimentos e orientações devem ser dados, no entanto, por estar, também, eu, padre, sujeito a quedas, farei isso com caridade, paciência e misericórdia. Muitos provavelmente se afastem pela forma apressada ou impaciente como estou confessando. Ao atender uma confissão devo ser eu sinal visível do encontro com Deus que é paciente, também, para comigo. Por outro lado, o penitente diante de suas feridas espirituais não precisa ter medo ao se dirigir ao confessionário como se estivesse indo a um tribunal. Santa Faustina Kowalska escreve em seu diário a este respeito: “Quanto maior o pecador, tanto mais direito ele tem a minha Misericórdia” (723)

Conclusão


Deste modo diante do que refletimos, é importante compreender que na confissão é Deus quem perdoa por meio do sacerdote. Ele é o artista, nós padres somos apenas instrumentos quebrados em sua mão. A obra acontece porque Ele vem em nosso socorro e faz sua misericórdia agir em nós apesar de nossa pequenez. Não adiemos a nossa confissão por vergonha ou medo deixando de fazer esta profunda experiência com a misericórdia de Deus que como Pai nos espera de braços abertos para nos encontrar. 

A Verdadeira Devoção a Divina Misericórdia



São João Paulo II instituiu no dia 30 de abril de 2000 a Festa à Divina Misericórdia a ser celebrada a cada ano no segundo domingo da Páscoa. Santa Faustina, chamada apóstola da misericórdia, já anos antes havia escrito em seu Diário mostrando o desejo do próprio Jesus: Quero que essa imagem, que pintarás com o pincel, seja benta solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa, e esse domingo deve ser a Festa da Misericórdia(Diário, 47-49).  Os próprios textos litúrgicos desta festa nos direcionam para o significado profundo deste dia como, por exemplo o salmo 117: “Dai graças ao Senhor porque Ele é bom, eterna é a sua misericórdia”.

No entanto, São João Paulo II, já havia percebido certas barreiras com respeito a aceitação da misericórdia divina e da sua devoção, por isso ao escrever a carta “Dives in Misericordia” diz no capítulo IV: “É preciso que o rosto genuíno da misericórdia seja sempre descoberto de maneira nova. Não obstante vários preconceitos, a misericórdia divina apresenta-se como particularmente necessária a nossos tempos.”.

 Nestas palavras percebemos primeiramente que a devoção a divina misericórdia não pode ser igualada a outras devoções por ser “necessária”, ou seja, não é algo opcional. Mas, por que é ela  necessária? Pelo fato de estar ligada ao mistério central da nossa fé: Paixão, morte e ressurreição de Jesus. Contemplando a imagem de Jesus misericordioso vemos na catequese ali presente as marcas de Jesus crucificado e, ao mesmo, Cristo glorioso, ressuscitado.

Em segundo lugar, notamos nas palavras de São João Paulo II a existência de certo preconceito. Antes de concordarmos com determinado assunto precisamos primeiramente compreendê-lo. Quando negamos sem antes entender podemos cair neste perigo do preconceito. Mas, por que isso acontece, tendo em vista que em si a divina misericórdia é claramente algo bom para a humanidade? Provavelmente, porque, às vezes, identificamos a palavra devoção com alienação. Isto é, concluímos logo que buscar um tipo de devoção é para quem não quer se comprometer com as causas sociais da igreja. Dois pontos são importantes para a vida do cristão segundo o ensinamento de São Bento: “oração e trabalho”. As duas realidades devem andar juntas. A espiritualidade autêntica sempre nos conduzirá a uma verdadeira ação cristã.

Por isso, precisamos diferenciar devoção de devocionismo. O devocionismo sempre nos desliga da realidade, nos leva a uma falsa experiência de Deus, nos torna alheios aos sofrimentos dos outros. A devoção verdadeira, pelo contrário, nos leva a imitação de um santo, a uma atitude concreta, nos faz lembrar que “a fé sem obras é morta”, nos leva a conversão, nos liga ao amor a Deus, mas também aos irmãos. Desta forma, não devemos ter medo de acolher em nossas paróquias a devoção a divina misericórdia, pois esta vivenciada de forma verdadeira nos conduzirá ao encontro com Deus e a solidariedade com os irmãos que padecem de males corporais e espirituais.